Onde o Relógio Parou

Na parede da cozinha, há um relógio antigo que já não marca as horas. Seu ponteiro parou às 4h17 — ninguém lembra exatamente quando. Tentamos trocar as pilhas, ajeitar os encaixes, dar corda… mas ele permanece ali, imóvel, como se tivesse decidido que aquele era o momento certo para permanecer.

No início, incomodava. Um lembrete constante de que o tempo não avança como deveria. Mas com o tempo, o silêncio dele se tornou parte da casa. Hoje, acho que ele marca outro tipo de tempo — um tempo mais lento, interno, que não se mede com minutos.

Às vezes, passo por ele e me pego pensando: o que aconteceu às 4h17? Alguém sorriu? Chorou? Um pensamento importante atravessou a sala? Talvez o relógio tenha parado porque aquele instante merecia durar mais.

Em A Casa Sussurra, muitas coisas não seguem o ritmo do mundo lá fora. Aqui, os ponteiros descansam. Os dias se alongam devagar. O que importa não é o agora, mas o eco de momentos que resistem — quietos, mas vivos.

E assim, o relógio continua ali. Parado, sim. Mas atento. Marcando não o tempo que passa, mas o tempo que fica.


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