A Luz Que Anda pela Casa
A cada manhã, quando o sol começa a escorregar pelas frestas da janela, a casa desperta devagar. Não com barulho, mas com luz. Uma luz que não invade — ela entra aos poucos, como quem pede licença. E então começa a andar.
Ela começa no chão de madeira, formando um retângulo dourado que se move imperceptivelmente. Depois escala a parede, atravessa a cortina rendada, repousa no assento de uma cadeira vazia. Às vezes, ilumina um objeto esquecido — uma xícara antiga, um livro aberto, uma moldura empoeirada. É como se estivesse à procura de algo, ou apenas fazendo carinho na memória das coisas.
Ao longo do dia, essa luz muda de tom. De dourada e suave pela manhã, vira clara e quase branca ao meio-dia. E, no fim da tarde, ela fica laranja, depois rosada, e por fim azul, até desaparecer. Mas mesmo enquanto some, ela continua andando. É uma luz com pés invisíveis.
Há dias em que gosto de segui-la. Sentar onde ela pousa, sentir o calor leve que deixa sobre a pele, observar o que ela escolhe tocar. E quando a luz encosta nas paredes, nas estantes, nas plantas, percebo como ela dá vida às coisas. Ou talvez só revele a vida que já estava ali, escondida no escuro.
Quando chega a noite, a casa parece guardar tudo o que a luz viu. E eu gosto de pensar que, mesmo na ausência, ela continua ali — misturada ao cheiro de madeira, aos cantos das salas, ao silêncio dos objetos.
Hoje, te convido a observar a luz que caminha pela sua casa. Ela tem passos lentos, mas constantes. Ela vê tudo. E talvez, só talvez, ande pela casa porque também está procurando por você.
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