A Porta Que Nunca Fecha

Toda casa tem uma porta assim. Uma que insiste em permanecer entreaberta, mesmo quando você tem certeza de tê-la fechado. Pode ser o vento, pode ser a inclinação da madeira antiga… mas em A Casa Sussurra, aprendi que algumas portas simplesmente não querem se fechar.

Ela range baixinho à noite, como se respirasse. Durante o dia, quase passa despercebida — parte da rotina, uma sombra a mais no corredor. Mas quando o silêncio cai, ali está ela: entre o sim e o não, entre o dentro e o fora.

Já tentei encostar com firmeza, trancar, empurrar com cuidado. Mesmo assim, no dia seguinte, volto a encontrá-la do mesmo jeito — uma fresta, uma possibilidade. É como se a casa, através dela, quisesse manter algo por perto. Uma memória que ainda precisa circular. Um segredo que não terminou de ser sussurrado.

Essa porta dá para um cômodo quase vazio. Um lugar onde guardo coisas antigas — caixas, tecidos, fotografias. Mas talvez o que ela guarda mesmo seja o gesto de permanecer aberta. A delicadeza de deixar espaço para o que ainda não chegou, ou para o que nunca partiu.

Hoje, já não tento fechá-la. Aprendi a respeitar seu silêncio entreaberto. De vez em quando, paro diante dela e apenas escuto. O que ela não fecha, talvez seja exatamente o que ainda precisa ser sentido.


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