Debaixo do Tapete
Há um canto da casa onde ninguém olha com frequência. O tapete é grosso, antigo, com padrões quase apagados pelo tempo. Os passos já se acostumaram a cruzá-lo sem pensar. Mas hoje, por algum motivo, algo me fez parar. E ali, no silêncio, veio a pergunta: o que será que está debaixo do tapete?
Não me refiro à poeira, embora ela também esteja lá — fina, persistente, quase como um lembrete. Falo das coisas que escondemos. Pequenas. Intencionais. Esquecidas. Porque todo lar tem seus segredos, e às vezes os colocamos embaixo do tapete — fora do olhar, fora do alcance.
Uma carta que não deveria ter sido lida. Um botão que caiu de uma roupa que já não usamos. Um fiapo de algo que quebramos, mas não soubemos consertar. Pode ser literal, ou não. Porque há também aquilo que guardamos embaixo do tapete do pensamento: lembranças que incomodam, palavras que não dissemos, sentimentos que não quisemos varrer, mas varremos mesmo assim.
E com o tempo, o tapete parece crescer. Fica mais pesado, mais denso. Já não sabemos ao certo o que está debaixo dele, mas sentimos. Sabemos que há algo ali. E em certos dias, como hoje, sentimos vontade de levantar uma ponta.
Não para bagunçar a casa inteira. Mas para olhar, com ternura, para o que fomos empurrando. Não há pressa. Nem julgamento. Só a coragem suave de escutar o que repousa ali embaixo, esperando.
Hoje, te convido a olhar para o seu próprio tapete — aquele que cobre mais do que o chão. Há algo escondido ali? Algum detalhe esquecido, esperando ser lembrado? Às vezes, tudo o que algo precisa para deixar de pesar… é ser visto.
Aqui em A Casa Sussurra, o tapete continua no mesmo lugar. Mas agora sei que há um mundo delicado debaixo dele. E talvez, só talvez, esteja na hora de escutar o que ele guarda.
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