Entre Um Passo e Outro

 Há um silêncio que só existe entre dois passos.

Não é o silêncio da ausência, mas o da pausa. Um instante suspenso entre o antes e o depois, como se o tempo prendesse a respiração. Em A Casa Sussurra, aprendi a escutar esse intervalo — ele diz mais do que o som das próprias pegadas.

Às vezes, ao andar pelos corredores, paro de propósito. Não por esquecimento, mas por curiosidade. O que acontece quando nada acontece? É ali, nesse intervalo, que algo invisível se move. Uma lembrança se ajeita. Um cheiro antigo se aproxima. Uma sombra se estica um pouco mais.

Entre um passo e outro, a casa respira. As tábuas rangem suavemente, como se soltassem um segredo que ficou preso durante o dia. As cortinas balançam quase imperceptivelmente. A luz, mesmo parada, parece escorregar pelas bordas do tempo.

Talvez seja nesse espaço — tão breve e tão profundo — que mora o verdadeiro mistério da casa. Não nas coisas que se mostram, mas nas que apenas sugerem. Nos segundos que não são contados, mas sentidos.

Aprendi a respeitar esse intervalo. Ele é uma ponte. Uma fresta. Um eco sem origem.

Porque às vezes, é entre um passo e outro que a casa sussurra mais alto.


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