Nos Cantos Que Ninguém Limpa
Toda casa tem seus cantos esquecidos. Aquele espaço atrás do armário que ninguém move. O vão entre a estante e a parede. A quina escura da sala onde a luz do sol não alcança. Lugares que, com o tempo, se tornam invisíveis — não porque desapareceram, mas porque deixamos de olhar.
Ali, o pó se acumula com paciência. As teias se formam com delicadeza. Um fio de cabelo, uma folha trazida pelo vento, um botão que ninguém notou cair. Pequenos restos do cotidiano, como fragmentos de um tempo que se recusou a ir embora.
Não há pressa nesses cantos. Tudo ali parece existir num ritmo diferente. Como se a casa respirasse mais devagar ali. Como se, nessas sombras suaves, algo antigo ainda repousasse — uma lembrança esquecida, um pensamento mal-acabado, um pedaço de quem fomos e deixamos para trás.
Hoje me sentei no chão, perto de um desses cantos. Observei o silêncio que mora ali. Há algo sagrado em lugares que ninguém toca. Eles não pedem ordem, nem atenção. Só presença. Só um olhar gentil que diga: “eu vejo você, mesmo coberto de pó.”
Talvez esses cantos guardem aquilo que não tivemos tempo ou coragem de limpar em nós mesmos. Não sujeira — mas camadas de história. E, como a casa, também temos nossos espaços onde o tempo repousa intacto. Onde as coisas não precisam ser bonitas, só verdadeiras.
Te convido, hoje, a visitar um desses cantos. Não para varrê-lo. Mas para escutá-lo. Há algo que só pode ser ouvido ali — na quietude empoeirada, no gesto de olhar sem julgar.
Aqui em A Casa Sussurra, o pó não é inimigo. É memória em repouso. É o eco de passos antigos que ainda moram nos cantos que ninguém limpa.
Comentários
Postar um comentário