O Coração da Casa
Nem toda casa tem um coração. Algumas são apenas paredes, teto, função. Mas há outras — como esta — em que algo pulsa, silencioso, no centro de tudo. Não é visível. Não está em nenhum cômodo específico. E ainda assim, está em todos.
Percebi isso numa tarde morna, quando o vento atravessou os cômodos com uma suavidade incomum. As cortinas se moveram em sincronia. O som dos passos — meus passos — pareciam ecoar mais profundamente, como se algo estivesse escutando com atenção redobrada. Havia um ritmo. Um compasso invisível guiando tudo. Como uma respiração. Como um coração.
É nesse momento que entendi: a casa tem um centro, mas não é geográfico. É emocional. É sensorial. É feito das camadas de tempo que se acumularam aqui — os amores antigos, os objetos esquecidos, os silêncios partilhados. Cada memória, mesmo não minha, parece vibrar nesse núcleo invisível.
Talvez seja por isso que, ao atravessar certos corredores, sinto o ar pesar um pouco mais. Ou que, em determinadas horas do dia, o ambiente muda sem explicação — uma luz que se torna mais dourada, um cheiro que surge do nada, uma saudade que não sei de onde vem.
O coração da casa bate em silêncio. Bate nos sussurros da noite, nos estalos da madeira, nos sonhos que temos dormindo aqui. Bate, mesmo quando não estamos ouvindo. E quando escutamos com atenção, somos tocados por algo que não se explica — mas se sente profundamente.
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