O Visitante do Crepúsculo
Há um momento do dia que não pertence nem à luz nem à escuridão. Um intervalo breve, entre o fim da tarde e o início da noite, em que a casa muda de tom. As sombras alongam-se pelas paredes, a luz das janelas perde a cor dourada, e o ar parece mais espesso — como se o tempo, por um instante, hesitasse em continuar.
É nesse intervalo que às vezes sinto a presença dele.
Não tem nome, nem forma definida. Não bate na porta, nem se anuncia. Mas há algo em sua chegada que altera o ritmo da casa. O ranger suave do assoalho, o leve balanço de uma cortina sem vento, o cheiro de madeira antiga que de repente se intensifica. Pequenos sinais, quase nada — mas suficientes para que eu saiba: ele está aqui.
Não é medo o que sinto. É mais como uma saudade que ainda não entendi. O visitante do crepúsculo não traz susto, mas memória. Como se cada vez que chega, trouxesse consigo um pedaço do que fui, ou do que a casa lembra por mim. Talvez seja a própria casa que o convida, como uma velha amiga que guarda segredos demais para ficar sozinha.
Às vezes fico em silêncio, sentada com uma xícara de chá, observando a mudança lenta da luz nas paredes. Não falo. Ele também não. Mas algo acontece naquele espaço entre olhares invisíveis e pensamentos suspensos. Como se partilhássemos a mesma lembrança, mesmo que sem palavras.
Quando a noite cai por completo, ele se vai. Sem alarde. Deixa apenas um silêncio diferente — mais cheio, mais profundo. E, por um tempo, tudo parece mais verdadeiro.
Em A Casa Sussurra, o crepúsculo é uma porta entre mundos. E o visitante, seja ele real ou apenas um eco, me lembra que até a ausência tem presença.
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