Passos na Cozinha Vazia

Há um certo horário da tarde em que a cozinha fica em silêncio absoluto. A chaleira já esfriou, os pratos estão limpos, e as janelas deixam entrar uma luz quase dourada, cansada. É nesse momento que, às vezes, escuto passos.

São lentos, quase arrastados. Não vêm com pressa, nem com propósito. Apenas caminham. Como se alguém estivesse se lembrando do espaço, redescobrindo cada azulejo, cada armário antigo, cada marca no chão feita por móveis que já mudaram de lugar.

A cozinha está vazia. Sei disso. Mas o som é nítido. Não é assustador — é íntimo. Como se a casa repetisse os gestos de alguém que já não está, ou que viveu tanto ali que deixou rastros nos ecos do chão.

Esses passos me fazem pensar em quem esteve antes. Avós mexendo panelas, mãos cortando legumes com cuidado, crianças rindo enquanto roubavam pedaços de bolo. A cozinha guarda histórias. Muitas delas sem palavras, mas todas presentes na madeira gasta, nas manchas esquecidas, no cheiro que ainda vive nos armários.

Hoje, deixei a porta entreaberta. Escutei os passos como quem escuta uma música antiga. E por um instante, senti companhia. Não de alguém que se vê, mas de alguém que ainda caminha entre as lembranças.

Em A Casa Sussurra, até o vazio tem som. E os passos na cozinha nos lembram que há lugares onde o tempo não caminha em linha reta — ele gira, retorna, e dança lentamente entre o silêncio das coisas.


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