Perfume no Ar Silencioso
Há certos momentos do dia em que o ar da casa muda. Não por causa do tempo, nem do vento lá fora — mas por um perfume que chega sem aviso. Sutil, quase imperceptível, como se viesse de um sonho esquecido.
Ele aparece nos corredores quando ninguém passou, ou na sala quando as janelas estão fechadas. Um cheiro de flor antiga, de roupa de linho guardada, de algo que já existiu — e que insiste em permanecer.
Tentei identificar a origem. Revirei gavetas, procurei frascos escondidos, mas nada. O perfume vem e vai como quem visita. Não tem dono. Não tem propósito claro. E talvez, por isso mesmo, ele tenha tanto significado.
Às vezes acho que é a casa lembrando. Trazendo de volta um abraço antigo, um colo que se foi, uma noite tranquila de muito tempo atrás. O cheiro preenche o espaço como uma lembrança sem palavras — algo que o coração reconhece antes da mente entender.
Já pensei em registrá-lo, capturá-lo de alguma forma. Mas talvez ele exista justamente porque não pode ser preso. Ele é passagem. Um sussurro no ar. Uma memória leve que flutua entre os móveis, esperando apenas um olhar mais atento.
Em A Casa Sussurra, até o silêncio tem fragrância. E esse perfume, que chega sem nome, me faz lembrar que existem presenças que não precisam de forma para serem sentidas.
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