Repetições Que Não Fiz

Há gestos que se repetem, mesmo quando não lembramos de tê-los aprendido. Como se nossos corpos soubessem algo que nossas mentes esqueceram. Um abrir de gaveta que nunca usamos, uma música que cantarolamos sem saber de onde veio, ou a forma exata de dobrar um lençol como alguém que já partiu.

Nos últimos dias, notei que acendo a vela da cozinha sempre no mesmo horário. Não é proposital. Quando vejo, já está acesa. E há sempre uma brisa que passa pela janela naquele momento, como se o ar soubesse que precisa acompanhar o ritual. É um gesto pequeno, silencioso, mas repetido com precisão. Não foi algo que decidi fazer. Simplesmente começou a acontecer.

A casa observa essas repetições com uma certa cumplicidade. Como se dissesse: “isso já aconteceu antes”. Talvez com outra pessoa, em outro tempo, mas a mesma sequência, o mesmo olhar vago em direção ao corredor, o mesmo silêncio após a porta ranger.

Esses movimentos que se instalam em nós não são meramente nossos. São ecos. Fragmentos que o espaço guarda e gentilmente nos devolve. Não com urgência, mas com sutileza, como uma memória antiga sussurrada ao ouvido enquanto passamos por um corredor sombrio.

Não sei se é a casa que me influencia, ou se é algo dentro de mim que desperta aqui. Mas sei que nem toda repetição vem da vontade. Algumas vêm do lugar. E este lugar, com seus cheiros, sombras e silêncios, carrega gestos que continuam sendo feitos — mesmo quando ninguém mais sabe por quê.


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