Um Objeto Que Nunca Viu o Sol
No fundo de uma gaveta que quase nunca se abre, há um objeto pequeno, envolto em tecido antigo. Não brilha, não chama atenção. Está ali há tanto tempo que até o pó parece respeitá-lo. Nunca foi deixado sob o sol. Nem perto de uma janela. Ele vive nas sombras — e talvez seja assim que gosta.
Ninguém sabe ao certo o que ele é. Uma pequena escultura? Uma caixa com algo dentro? Um pedaço de algo maior? Seu peso é discreto, mas não vazio. Quem o segura sente uma pausa — como se o tempo desviasse levemente o olhar.
Há objetos assim: que carregam o silêncio do que não foi dito, o peso do que não foi mostrado. Não por medo, mas por cuidado. Por segredo. Por reverência.
A casa, com seus cantos de penumbra, parece saber onde esses objetos estão. Não os revela, mas também não os esconde. Apenas permite que estejam ali — à espera de mãos que saibam tocar com gentileza, olhos que não queiram descobrir tudo, mas apenas acompanhar.
Talvez um dia esse objeto veja o sol. Ou talvez não precise. Às vezes, o que é guardado nas sombras tem mais luz do que imaginamos.
Comentários
Postar um comentário